quinta-feira, março 15, 2012

escrevi pelas paredes os meus amores. acendi a vela sobre a lata. queimei os dedos com o cigarro. absorvi a luminosidade baixa do cômodo. absorvi a experiência de estar só com outra pessoa. deixei que a mente fosse embora do corpo. espalhei as cartas do baralho, sem sucesso, não encontrei nenhum curinga. pedi que tirasse as fotos das sombras que se compunham pelo meu corpo nu. o mundo se comprimindo dentro de mim, me pertencendo. o cheiro da noite, do incenso, o cheiro dele.
perguntei se ele achava aquilo tudo esquisito e ele não soube responder, deixando a questão amarrada á mim, a dona de todas as ensandices.

era muito particular mesmo para ser dividido, fragmentado, compartilhado com outro. era meu, minha, todos.

e escrevi, que é o que me conforta nos momentos em que não posso ter ou fazer tudo.


o corredor,

o roçar de pernas por baixo da mesa,

...essas noites poderiam durar para sempre.

segunda-feira, março 12, 2012

mas eu sei, e você sabe.

foi assim que eu tive que te ver partir. perdendo-se entre o quadriculado do corredor. levando embora a paz que eu havia conquistado. deixando tudo nas entrelinhas.

você saiu, e o céu começou a revoltar-se.

você foi frio, e me matando aos poucos fingiu estar bem.

me fez calar a boca, me afastou da porta, empurrou-me contra os armários, manteve-se mudo na volta para casa.
escondeu-se por meses.
exibiu-se e ignorou, como se eu nada fosse...

mas eu sei o que eu sou, e ainda mais, sei quem você é.






quinta-feira, março 01, 2012

Era para ser?

Tão surreal que nem sei se foi mesmo.
Nem sei se era para ser alguma coisa.

"-O que foi?
-Nada, era para ser alguma coisa?
-Não sei.
-Nem eu."

Mas foi bom, o sabor, o cheiro, o olhar.
Palavras trocadas, destrocadas, desencontradas que se encontraram.

Existe por detrás dele toda uma forma de observar, toda uma forma de fingir não estar lá.

Um jeito que deixa um desejo.

Um cigarro á dividir,
uma parte de mim que nunca mais quer partir.

"Eu vou dormir pra que? Se eu estou afim de me entregar?"



domingo, fevereiro 12, 2012

flerte.

- Você está tão linda hoje.

Sem reação, emudeceu, fingiu brincar com o copo.
Não sabia de forma alguma lidar com elogios, logo se acanhava, não importando o grau de embriaguez.
Sorriu e abraçou, daquela forma incomum.
Correu, sentiu.
Parou e refletiu.

- Um beijo pelo seu pensamento.

Queria mais do que apenas ouvir as palavras, queria entender exatamente o que ele falava, e porque falava.
Aquilo tudo se tornava mais estranho a medida que os dias corriam, que as conversas se estendiam, que o curto momento do sorriso no meio da multidão durava.



Vou começar a te inventar.

(apenas mais um fragmento de conversas desconexas)

sábado, dezembro 31, 2011

nos cantos

Ah, ela esteve por aqui por todos estes dias. Da segunda ao domingo ela preparou o café, dobrou as meias, esperou no sofá. Por todos esses dias, ela se deslocou de sua casa tarde da noite, pulando de ônibus para metrô, só para estar por ali. Te servir o jantar como se dentro de um casamento vivessem. Ela esteve por ali nos momentos em que você não estava, e esteve mais presente ainda nos momentos em que esteve com você, mas você, por egocentrismo ou qualquer razão injustificável, esteve ausente. Os beijos eram secos e curtos, não se demoravam mais nos lábios.

Talvez um dia, quando tudo estiver acabado, quando a cidade e os bares da cidade ficarem pequenos e desinteressantes, você irá procurá-la nos cantos dos cômodos da casa, você irá procurá-la nos rostos doces, nos corpos pequenos, nas conversas de madrugada. Você tentará mantê-la em sua lembrança então, quando reparar que fisicamente ela te deixou.

terça-feira, dezembro 27, 2011

que morria.

então você está ali parado, encostado na porta verde de ferro, esperando alguém com algo além.
ninguém vem.
exceto a mãe de seu amigo que parou e lhe deu uma rosa.
escuro se torna, o dia morre, e você se encontra sentado no chão de ladrilhos verdes do banheiro dela. marlboro queimando entre os dedos trêmulos, frágeis.
o cérebro se comprimindo. respira, sôfrega.
"saia sua maldita da minha mente!"
deu vontade de gritar no pequeno espaço, mas era noite que morria e nascia em madrugada, e ai se calava, diante do desespero do último e escasso gole.
"acabou."
a última sensação de segurança se foi, no vento em pequeninos grãos de poeira.

02/02/2011