sábado, outubro 15, 2011

domingo, outubro 09, 2011

como não desistir.

o beijo doeu como uma mordida.
os lábios salgados de lágrimas encontraram o ardor entre os cortes sutis da boca.
o choro era assim, algo para se preocupar, porém o motivo a deixava ainda mais frustrada.
era tolo, mas doía.
e o mundo daquele quarto, daqueles dois, havia parado.
- o que eu faço para te alegrar? o que está acontecendo com a minha criança?
sem respostas, só soluços, confusões.
as horas passavam sem piedade, tão rápido que enraivecia.
então veio o sono, uma calma para o coração dessa menina. braços envolvidos apaziguando o mal estar.
tudo estaria em seu lugar enquanto aquele abraço, aquele sono compartilhado durasse.


pois há, mais do que sempre a vontade de desistir. mas existe sempre uma razão para fechar os olhos no fim do dia e dizer "aguenta!".
no meu caso quando paro nesse meu momento, constato sempre que a razão é você.
e enquanto te espero neste final de tarde frio só penso em como não desistir.

sexta-feira, maio 06, 2011

ser/estar

para ele, e só.

Vim aqui só para te agradecer.

É sério,não vim te pedir nada, nem chorar. Só preciso agradecer antes que essa ideia vá embora junto com todas as outras que tenho constantemente. Obrigada por ser e estar. Obrigada por estar sempre por aqui, e por ser você, sem se esforçar para ser algo além. Obrigada por ser a pessoa mais presente na minha vida ultimamente, e por carregar junto comigo os problemas que vivencio todos os dias, e a partir daí conseguir sempre, sempre me fazer sorrir, seja com cócegas ou apenas com seu sorriso de criança, seu sorriso que diante de mim, e só para mim é inocente, é limpo e claro.

Obrigada por me tirar do abismo em que há meses eu me encontrava, chafurdada em lama e maus costumes, obrigada por acalmar meus ânimos e nervos, abrir meus olhos nas manhãs de domingo e me fazer enxergar o quanto de mal eu causava a tudo ao meu redor.

Não sou uma pessoa melhor, isso seria utopia, puro milagre, mas sou uma pessoa com escolhas diferentes, visões de futuro que nem de perto se igualam ás de antigamente.

Se é que eu tinha alguma...

Obrigada por ser o dono da voz ao celular que escuto quando acordo, dizendo "bom dia". Obrigada por me proporcionar essa pequena alegria.

Por ser meu par, meu companheiro, na sinuca, na Heineken, na pipoca com manteiga, no trabalho da faculdade, no dinheiro do cofre, no trânsito, nos cafés de padaria ou cafeteria, na divisória da barraca de uma pessoa e no beliche de cima.

Obrigada por ser meu.
Obrigada por me salvar.

Obrigada por ser, e por estar.

domingo, abril 24, 2011

antecipar

Fazia um calor absurdo naquela tarde em que recebera o telefonema de que ele não viria.

Com a maquiagem impecável e a roupa de boneca; ela se sentiu um lixo.

Parecia que estava derretendo como um boneco de cera pouco apreciado num museu francês.

- Colére.

Ele não conseguiria chegar no horário, e por isso adiou o compromisso.

Atrito.

Lágrimas.

Febre.

Fazia um calor absurdo, e ela só sentia frio.

Vestiu o moletom surrado que ele deixara na última visita, e com lágrimas nas pálpebras, chorou, protegida pelo escuro do cobertor.

O calor era imenso, de fritar um ovo sobre as telhas quentes de sua casa, que aos poucos ia rachando as paredes frágeis, mas ela estava gélida, e sua cabeça latejava, como uma ressaca que nunca queremos ter...

Que nunca imaginamos que vem depois da maravilhosa noite de sexta que temos, sempre.

A boca seca, a sede insaciável, a vontade de beber água, mas também o fato de saber que se beber aquela água de torneira, irá piorar o mal-estar no decorrer do dia.

E o decorrer do dia seguiu neste angustiante itinerário...

Da cama não conseguia levantar, ela até tentou, mas parecia que pisava em nuvens, e que cairia para além delas se andasse um pouco mais.

Novamente se refugiou no calor das cobertas escaldantes. Um inferno particular que tentava se abrigar.

Quando já não podia mais aguentar a febre, e o suor frio escorria ao longo das costas ossudas, e empapava a nuca, o telefone tocou.

Ele.

Ele viria, e traria um analgésico, e algo que ela gostasse de comer, e pediria sua paciência, sua complacência, para que o atrito, as brigas, as intrigas e tudo que de mal havia ficado na sexta-feira, simplesmente ficasse...

domingo, abril 10, 2011

interno, eterno.

o erro dele: conseguir dormir sem ela.

o erro dela: acreditar que ele conseguiria.



- não me faça viver sem você.

quarta-feira, março 30, 2011

oito

- Você gosta mais de casa ou apartamento? Porque pra mim tanto faz, você sabe... Bem, apartamento nós não poderemos escolher a cor, como se faz em uma casa, mas podemos colorir por dentro, que cor você gostaria para a sala?

- Pode ser branca ou marrom, vou forrá-la com quadros. Papel de parede também é interessante... Mas o quarto tem que ser preto! Ao menos a parede maior tem que ser preta...

- Quero um cachorro vira-lata, gato eu já tenho, ele vai comigo pra nossa casa.

- Nos podemos morar na Pompéia, o que você acha? Eu gosto tanto daquele lugar... Ou ficar por aqui mesmo, mais para o centro, eu gosto dessa cidade...

- Gosto daqueles apartamentos bem antigos, sabe? Onde ninguém gostaria de morar por causa da tintura descascada, ou das janelas antiquadas...


 

Após a discussão, após o choro, e após as palavras desnecessárias, resolveram aproveitar a noite.

No carro enquanto esperavam outras pessoas, começaram a, finalmente, conversar sobre o futuro.

Oito meses neste mês de março, já era hora.

E riam, ao imaginar a vida que queriam construir, o lugar aonde dormiriam todas as noites juntos, sem se preocupar em telefonar para avisar, sem o tormento de pedir permissão e o pedido simples ser-lhes negado sem ao menos um bom motivo.

A imaginação de ambos viajava feliz, sem limites...

Ele ficava cada vez mais contente com tudo aquilo, ainda mais por poder olhar nos grandes olhos de sua menina e não ver mais lágrimas, apenas brilho.

Ela o achava mais bonito aquela noite. Bonito da maneira mais simples, ele não se esforçava, e ela adorava a forma despreocupada com que ele sorria.

Abraçou-o com a força habitual, o carinho habitual, mas o amor agora já não era igual...

O cheiro de shampoo dos cabelos ralos dele acalmando-a devagar, o perfume suave exalando tranquilidade e segurança.

O que ela sempre quis, e agora está completo;

À medida que os passos curtos vão sendo dados e se tornando grandes passos, e a vida vai se formando em sua imensa dimensão.

Está acontecendo.

sábado, março 12, 2011

sete horas

Eu via nuvens, via besouros, via insetos e sentia um cheiro horrível de roupa suja, de pessoa suja.

Cheiro de hospital, material descartável, torniquete, três furos no meu braço amarelo.

Sete horas que eu estava ali.

O corredor era branco como os cabelos daquele senhor, que jazia deitado na maca logo a minha frente.

Seu filho segurava-lhe a mão como uma última esperança, seu nariz pontiagudo e a boca entreaberta retratava a fraqueza de seu corpo. Acabara de sofrer um infarto, ali, na frente de todos.

Todos achando que seus problemas eram tão maiores do que o daquele homem, e de seu filho.

De repente me senti um tanto mesquinha perante minhas atitudes, e o choro subiu a garganta ao olhar aquele filho, já de idade também, acalentar o senhor.

Senti-me sozinha, pois estava sozinha ali naquele corredor, sem mãe ou pai ou irmãos.

Me escondi no capuz da blusa, o escuro tentava me acolher...

Fazia 7 horas que eu estava ali, e aquele senhor passava diversas vezes pelo corredor, sendo empurrado naquela maca, naquele lugar estreito e cheio de barulho.

Comecei a pensar um pouco em mim. Na briga com meu pai que tive pela manhã, na minha falta de voz perante tudo de mal que acontece.

Chega uma hora que falta anseio e vigor para seguir tentando, e você simplesmente deixa que te arruínem.

Que te levem...

Sete horas que eu estava ali, três picadas nos braços amarelos.

Apesar do mal estar, ia embora com a vontade de não ir para casa.